
Então, com base em perguntas frequentes de consultório, dia após dia, quero aqui expor esclarecimentos básicos sobre tudo o que envolve o pré, per e pós-operatório, em relação as cirurgias desse seguimento corpóreo.
Anestesia
Com relaçao à anestesia, existe um período de jejum, muito contestado pela maioria dos pacientes,que varia de 6 a 8 horas antes da cirurgia. A explicação está no fato de que o paciente, ao ser submetido a indução anestésica, perda um pouco o nível de consciência, podendo evoluir com o que chamamos de broncoaspiração, que nada mais é do que o refluxo do conteúdo gástrico para laringe, cursando com a entrada do mesmo na árvore brônquica. Tal complicação pode resultar em uma patologia muito grave e que leva o paciente a ter necessidades de cuidados intensivos, chamada Pneumonia Aspirativa.
Portanto, acredito que é bem melhor manter o jejum, apesar do incômodo!!!
Quanto a escolha pela técnica anestésica a ser empregada, cabe ao anestesiologista a decisão, porém a mais utilizada e a Raquianestesia, que bloqueia as estruturas nervosas abaixo da linha da cintura, por um período de 2 a 3 horas. Pode-se ainda associar a sedação, porém essa escolha cabe ao paciente, uma vez que a cirurgia pode ser assistida pelo mesmo na tela do monitor, em tempo real.
Cirurgia - Artroscopia
Como já é amplamente conhecido, e com base nas fotos aqui mostradas, começamos dizendo que nos dias atuais a cirurgia é bem menos invasiva e traumática. Os acessos cirurgicos são dois, medial e lateral ao tendão patelar, com aproximadamente 0,5cm, por onde introduzimos a câmera e o instrumental especializado, todos de calibre bem pequeno. Nao há cortes extensos e nem grande descolamento de tecidos moles, o que diminui as chances de infecção e deiscência da sutura.
A cirurgia e totalmente realizada com a visualização indireta pelo monitor! Portanto, pode ser assistida em tempo real pelo paciente, desde que possua "estomago forte"!!!
Cabe uma ressalva: se o procedimento for só para corrigir lesões meniscais ou sinovectomia, somente os dois orifícios iniciais são confeccionados!!!
Técnicas de retirada do enxerto (para reconstruções ligamentares)
Uma técnica muito conhecida há longo período é aquela que usa o terço médio do tendão patelar, que é obtido com um corte mediano, com aproximadamente 10 a 12cm, que resulta em uma cicatriz anterior.
Há um método menos traumático de retirar o enxerto, com uma pequena incisão (4cm em media) na face antero-medial e proximal da perna, identificação e exérese dos tendoes dos mm. grácil e semitendíneo para confecção do enxerto final. Somem-se a esta, as mini-incisões medial e lateral ao tendão patelar (0,5cm cada), além de uma com aproximadamente 1cm no polo proximal, para colocação do parafuso de fixação transverso no fêmur.
Sistema de drenagem fechada (a vácuo) no pós-operatório imediato
É muito importante que se instale tal sistema logo após o procedimento cirúrgico, uma vez que o mesmo é totalmente realizado dentro de uma cavidade articular, delimitada por uma membrana pouco distensível, que é submetida a grandes aumentos de pressão resultantes de sangramento ativo sinovial e ósseo.
No total , o mesmo é mantido por um período de aproximadamente 18 horas, dependendo de caso a caso, onde o volume total drenado chega a 600 ml em alguns casos. Imagine essa quantidade de sangue confinada na cavidade articular!!! Resultaria em muita dor e impotência funcional, comprometendo o resultado final do procedimento.
Isso é ainda mais importante quando estamos falando de reconstrução ligamentar, que necessita da confecção de túneis ósseos por broqueamento, com maior sangramento resultante.
Recuperação pós-operatória - Fisioterapia
A fisioterapia começa logo após a cirurgia, com aplicação de gelo local, sessões de 20 minutos a cada 2 ou 3 horas, além dos exercícios isométricos (contração muscular, sem mobilidade articular ativa). Tudo iniciado ainda com o dreno.
Após a retirada do dreno, a mobilidade articular passiva e instituída, dentro dos limites da dor, além de carga parcial assistida nos primeiros dias.
O uso de tutores fixos de joelho restringe-se ao dormir e ao andar em vias públicas, pelo risco imposto pelos desníveis, que favorecem novas torções.
Após a primeira semana, os movimentos articulares são favorecidos para menor perda de propriocepção (sensação da perna no chão) e maior ganho da amplitude de movimentos. A carga passa a ser sem auxílios ou restrições, sejam absolutas ou relativas.
Evolução para cura e retorno à prática laborativa e/ou desportiva
O período de tempo para recuperação total e variável, dependendo de fatores como técnica empregada, tempo de cirurgia, material utilizado, assiduidade as consultas de acompanhamento ambulatorial e fisioterápico, eficiência fisioterápica, dentre outros. Em termos gerais, o retorno à prática laborativa gira em torno de 30 dias, com restrições para carregar peso ou longos períodos de ortostase (ficar em pé), assim como subir escadas.
Quando o assunto é a prática de esportes, o retorno pode ser precoce, por volta de 4 meses, ou um pouco mais demorado, como 6 meses, esse último nos casos onde se pratica esportes que exigem saltos (Volei, Basquete, Handebol, ...).